Que país eu quero para o futuro

Nos últimos meses, em um quadro da Rede Globo, a frase que mais tem se ouvido de brasileiros de todo canto é: “Quero um Brasil sem corrupção, com políticos honestos.” Mas será que essas mesmas pessoas são honestas como elas exigem que os políticos sejam? Porque essa história de “faça o que eu falo, não faça o que eu digo” não cola pra mim. Se você quer um país probo, a mudança tem que partir de você.

Se você ocupa a vaga destinada a uma pessoa com deficiência ou não devolve o troco a mais que recebeu, você é tão corrupto quanto o governante que você critica. Digo mais: caso estivesse com o poder nas mãos, cometeria os mesmos atos que você tanto condena. Pois não existe crime pequeno ou grande. Se você rouba uns centavos, quando tiver oportunidade, vai roubar milhões. Se você ocupa a vaga destinada por lei a alguém que precisa, vai pegar o auxílio moradia, mesmo sem precisar.

A mudança começa por você. Parece conteúdo de auto-ajuda, mas é a  pura verdade. A política é feita por pessoas, como eu e você.  Os milhões de brasileiros que furam fila, que dizem que idoso não tem que sair de casa em horário de rush, que abandonam o cachorro quando este incomoda… são os mesmos que se candidatam aos cargos eletivos. Por isso, antes de desejar que o outro mude, olhe para os seus atos e veja se eles estão refletindo seus desejos.

Outra coisa que se ouve também é “Eu quero mudança.” Mas as atitudes demonstram o contrário. Pois, mesmo com todas as acusações que vieram à tona contra Beto Richa, e a truculência de Roberto Requião com eleitores, já televisionada, ambos apareceram em primeiro lugar nas pesquisas para senador do Paraná.

Que mudança é essa? Que repúdio é esse à corrupção que premia corruptos?

Outra questão é que muitas pessoas não entendem a função do político. Você não tem que votar no deputado que lhe faz favores ou dá cesta básica. A função do chefe do executivo é administrar, e a do legislativo, fazer leis e fiscalizar o executivo. Os pequenos favores que eles prestam aos eleitores fazem parte da corrupção. Porque, para dar algum benefício, o político tem que tirar dinheiro de algum lugar. E não é do bolso dele. Ou ele vai desviar dinheiro ou vai dever o favor a alguém, e aí segue a roda da politicagem.

Enquanto o povo continuar dando seu jeitinho brasileiro para tudo e continuar votando sem pensar, não vejo boas mudanças no nosso país.

Não vote em fulano porque é famoso ou por estar à frente nas pesquisas. Pesquise sobre os candidatos. Em vez de ficar procurando vídeos idiotas para compartilhar nas redes, leia os programas de governo dos candidatos. Para deputados e senadores, pegue nomes que simpatiza e faça uma pesquisa. Quais são suas propostas? Já foi condenado por algo? Se o cidadão já foi acusado de algo, já é o suficiente para descartá-lo. Pois, como já diziam: “não basta a mulher de César ser moral, ela tem que parecer moral.”

Eu li o programa de Marina Silva e gostei muito. Se ela conseguir colocar em prática a metade do que pretende, será muito positivo. Já Bolsonaro: Se o cara profere frases preconceituosas contra homossexuais e extremamente ofensiva contra as mulheres, imagina o que ele é capaz de fazer com o poder nas mãos?

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Teatro para cego ver

Sábado, fui assistir a minha primeira peça com áudio-descrição. “A Visita da Velha Senhora”, com Denise Fraga, Tuca Andrada e grande elenco. É a história de uma senhora rica, que volta à cidade natal para se vingar do antigo namorado pelo mal que ele lhe fizera na juventude. Em um texto bem humorado, a peça também coloca em discussão o que as pessoas são capazes de fazer por dinheiro.

Fui orientada a chegar uma hora antes, porque, segundo a responsável pela áudio-descrição, haveria uma narração prévia, em que seriam descritos cenários e figurinos. Assim, cheguei às 20:00 h. Deixei meu documento no balcão e recebi um receptor com fone de ouvido. Minha cadela guia  e eu nos acomodamos na quinta fileira, com os demais deficientes convidados. Os atores vieram falar comigo, pois, como circulariam pela platéia durante o espetáculo, tinham receio de pisar na minha cachorra guia. Coloquei-me à disposição para mudar de lugar, mas eles decidiram que não haveria necessidade. Tirei o equipamento da cachorra, para ficar mais à vontade, e ela ficou em formato de bolinha no chão, quietinha, o tempo todo, apesar de o elenco falar alto e tocar instrumentos perto dela. Era a primeira vez que eu frequentava teatro com minha nova guia.

Minutos antes de a peça começar, a áudio-descrição iniciou descrevendo o espaço físico do teatro e informou que havia dois intérpretes de Libras (para os surdos) e espaços no público para acomodar cadeiras de rodas. Nada de explicações prévias sobre o espetáculo, conforme haviam me informado. Não havia necessidade de chegar com tanta antecedência, ainda mais para a uma apresentação que já duraria duas horas.

Quando a peça iniciou, a narradora começou a descrever o cenário e os atores que estavam no palco. Mas logo iniciou o diálogo dos personagens. é uma peça um tanto trabalhosa para quem não enxerga entender, porque eram muitos atores em cena, então, era difícil gravar a que personagem pertencia cada voz. Até porque tinha atores que faziam mais de um papel. Quando um personagem entrava em cena, a narradora dizia seu nome. O problema é que ela falava junto com as falas. Aliás, essa foi a única falha que encontrei na áudio-descrição. Porque eu pensava que esse recurso não poderia interferir nos diálogos. Havia momentos em que eu abaixava o volume do fone de ouvido, a fim de que a áudio-descrição não atrapalhasse os diálogos. 

Na minha opinião, a áudio-descrição é muito válida, principalmente para descrever ações sem diálogos. Agora falar junto com os atores atrapalha o entendimento da história, quebrando a concentração. 

De qualquer forma, é muito bom que as produções estejam cumprindo a lei e estejam provendo recursos para a inclusão dos expectadores com deficiência. Eu nunca havia visto tanta gente com deficiência junta em uma platéia de teatro. 

COMO FOI O TREINAMENTO COM MEU CÃO GUIA

Quem leu meu capítulo no livro “Bravas Viajantes”, verá que o treinamento na Guide Dog Foundation está completamente diferente. Está mais rígido, puxado e, portanto, mais cansativo. Não imaginei que seria tão difícil, já que eu estava indo treinar meu quarto cão guia, na mesma escola. Doce engano.
Para começar, o período de adaptação, que antes era de 25 dias, agora era de apenas doze dias. Antes, nós tínhamos só duas caminhadas por dia e ficávamos bastante tempo esperando no ônibus. Momento este o qual aproveitávamos para interagir com os colegas e fortalecer laços. Agora, fazíamos três caminhadas pela manhã e três à tarde.

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Parada na esquina esperando para atravessar a rua com a treinadora atrás olhando.

Na minha turma de 2018 havia sete alunos e quatro instrutores. Assim, cada instrutor ficava responsável por dois estudantes. Minha instrutora se chamava Maria e eu a dividia com a Kely.
Os horários continuavam rigorosos. Antes das sete, tínhamos que dar água e comida aos cães, para, às sete em ponto, os levarmos para fazer as necessidades. 7:20, tínhamos que estar no refeitório para o desjejum, a fim de estarmos prontos às 7:50 para sair. Voltávamos por volta de 11:30, almoçávamos meio dia e saíamos a uma. 16:30, tínhamos que estar de volta para alimentar os cães e levá-los para fazer as necessidades (mas sempre voltávamos antes); às 17:30 era o jantar e às 20:30 era a última chance do dia para os cães se aliviarem.

 

Haja patas e pés
Apesar de todos irmos ao mesmo lugar, cada instrutor saía com um carro, que era deixado a algumas quadras da escola, a fim de que fizéssemos esse trajeto sempre antes de sair e ao voltar do treinamento. Como treinávamos de manhã e à tarde, fazíamos esse caminho quatro vezes por dia. O interessante é que os instrutores usavam esse trajeto para treinar diferentes habilidades do cão. No início, o caminho era livre. Com o passar dos dias, eles colocavam diferentes obstáculos para fazer o cão contornar. Em um dia, jogavam comida no chão; no outro, levavam cachorros estranhos para servir de distração, no outro, ficavam chamando a atenção do cachorro, como as pessoas fazem nas ruas: tentando passar a mão, chamando, estalando os dedos. Tudo para testar o cão e com o objetivo de nos fazer corrigí-los, se viessem a se distrair.
Porque a escola fica em um lugar muito calmo, pela manhã, íamos até o centro mais próximo, cerca de 45 minutos dali, onde, por cinco dias, fizemos o mesmo trajeto, cruzando ruas movimentadas até uma farmácia.
À tarde, treinávamos no shopping, onde aproveitávamos para ensinar os cães a encontrar lojas, andar pelos corredores e pegar escada rolante.
No fim do dia, eu estava tão cansada, que “morria”na cama. E havia dias em que eu não sabia se meus pés iriam aguentar. Até a cachorra ficava cansada.
Além de treinar o dia todo, a segunda-feira à noite era reservada para a caminhada noturna, em que usávamos uns coletes refletivos , por segurança.
Nos demais dias, treinamos em lugares diferentes, como parques e lugares sem calçada.
Um dos dias do treinamento era feito na cidade de Nova York. Para tanto, partimos da escola 6:30 da manhã. Esse dia não foi muito proveitoso, pois, só fizemos uma caminhada e a baixo de chuva. Por se aproximar mais da realidade das grandes cidades brasileiras, para mim, seria mais proveitoso se treinássemos com maior frequência na Big Apple.

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Parada em outra esquina aguardando para atravessar.

 

Novo treinamento, velhos hábitos
Além da rotina, da carga horária mais intensa, havia muitas mudanças no treinamento, as quais foram difíceis para eu me habituar. A final, foram quase vinte anos usando cão guia de um jeito.
Alguns comandos mudaram. E eu continuava usando os antigos. É Automático! Mudaram também algumas orientações de como conduzir as situações, as quais não fariam muita diferença na prática, mas minha instrutora exigia que eu fizesse tal qual ela queria, brigando comigo se eu fizesse diferente.
Agora, além do elogio verbal e do carinho, tínhamos que agradar o cão com comida, a cada porta encontrada, a cada parada no degrau, a cada obstáculo desviado, a cada vez que o cão ignorava uma distração. Assim, sempre tínhamos que estar com a mão direita livre, pronta para dar o petisco. Com o intuito de não atrapalhar a dieta do cão, retirávamos a comida da porção de ração que ele comeria naquele dia.
Parece uma mudança pequena. Na prática, contudo, é complicado, pois, a gente não costuma sempre andar com as duas mãos livres só para os assuntos do cão, e os instrutores não entendiam isso. No dormitório, eu gostava de andar sempre com o cão, com o objetivo de reforçar o treinamento. Às vezes, entretanto, eu preferia deixá-lo no quarto, pois, se eu fosse pegar uma água no refeitório, portanto, com a mão ocupada sem poder dar o petisco ao cachorro, eu levava bronca do instrutor de plantão.
Confesso que tudo isso me estressou bastante, sem falar no frio que pegamos. Apesar de estarmos em abril, cheguei a Nova York com três graus. E, talvez, a temperatura mais alta que peguei foi doze graus, em raros momentos.
Quando chovia, era pior: além de frio, ficávamos molhados, porque minha capa de chuva deixa molhar um pouco as pernas e pés.

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Eu saindo de uma loja de conveniência com a cachorra.

Os dias na escola foram difíceis, cada momento, um desafio. Mas eu superei e estou com meu novo cão guia, que vai viver, saudável, por muitos anos comigo.

Danieli Haloten

UMA NOVA VISÃO

O primeiro encontro

Desde a inscrição na escola até o dia do treinamento, foram sete meses de espera por um novo cão guia. Era muito grande a expectativa em saber qual era a raça, o sexo…

Se, do meu lado, eu esperava, ansiosa, por meu novo amigo e já o amava, o cachorro não fazia a mínima idéia do que iria acontecer com ele.

No fundo, eu tinha esperança de reconhecer no meu novo cão guia algum dos meus cães falecidos. Mas o encontro com meus novos olhos não foi como de filme, em que um reconhece o outro e demonstra amor de pronto. 

Duas horas antes do encontro, quando soube as características do meu novo cão guia, fiquei um pouco decepcionada ao saber que era fêmea. Como eu havia sonhado três vezes que seria um macho, de cor escura e nome estranho, eu tinha certeza de que seria macho, talvez, parecido com Higgans, meu terceiro cão guia, que está no meu livro “Uma viagem no escuro”. Não tenho preferência por tipo de cachorro. Só que, desta vez, minha intuição havia falhado.

Minha cachorra é uma labradora preta, de quase dois anos de idade, e ainda menor que Trini, que já era pequena. 

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Eu sentada na cama e minha cão guia com as patas da frente no meu colo.

Enquanto Trini tentou arrancar meu brinco no primeiro encontro, minha nova guia era tímida com estranhos. Assim, ela não me deu muita atenção. Ainda estava apegada a sua treinadora, minha instrutora Maria. Depois de muito fazer festa para a cadela, ela pulou no meu colo.

Por mais que os cães se apeguem rápido, essas transições também não são fáceis. O cão guia nasce com uma família que cuida de sua mãe. Com dois meses, vai para uma família socializadora que fica com ele até um ano, um ano e meio de vida; daí, ele vai para a escola de cão guia e estabelece uma relação com o treinador, que pode ou não ser o mesmo instrutor que nos treinará em classe (no meu caso, era a mesma).

O período de treinamento serve tanto para recebermos os comandos e aprendermos a lidar com o novo guia, como também para que ele entenda que, a partir de agora, nós somos o líder. Antes, tínhamos 25 dias para isso. Agora, tínhamos somente duas semanas.

Com o tempo, minha cachorra foi se apegando a mim. A ponto de, ainda na escola, eu ir tomar banho, e ela ficar me esperando, deitada, ao lado da banheira.

Agora, ela já fica pulando em mim e é bem companheira. Mas ela gosta de todos na minha casa. Vai receber cada um que chega e vai “importunar” cada um em seu quarto.

Ainda estamos em processo de adaptação. Por isso, é muito importante seguir o treinamento à risca e não deixar ninguém fazer carinho nela, principalmente, quando está trabalhando.

Danieli Haloten

A ESCOLA DE CÃO GUIA

Como é uma escola de cão guia nos Estados Unidos

Já contei para vocês como foi minha chegada na escola de cão guia no post

https://mundoasescuras.wordpress.com/2018/04/17/primeiro-dia-de-treinamento/

e contei, muito rapidamente, o primeiro dia de treinamento aqui

https://mundoasescuras.wordpress.com/2018/04/17/segundo-dia-de-treinamento/

Agora, vou poder contar para vocês, com mais tempo, como é o dia-a-dia em uma escola de cão guia nos Estados Unidos.

A fim de que vocês possam viajar comigo, começarei descrevendo como é o campus da escola.

A uma hora e meia do aeroporto de Nova York, chegamos a Smithtown, uma cidadezinha de Long Island, parte nobre do estado de Nova York. Ao que tudo indicava, a fundação fica afastada de tudo. Pois, sempre que tínhamos que ir para qualquer lugar, tínhamos que pegar o carro. Smitown é bem tranquila, arborizada, com calçadas boas de andar. Apesar disso, parece que não é uma cidade para se andar a pé. Porque, em todos os quatro treinamentos que fiz, nunca topei com um pedestre. Também não existe muito tráfego de carros. Arrisco dizer que eu poderia atravessar a rua sem prestar atenção, que não seria atropelada. Além disso, não tem cães de rua como no Brasil. Só encontrei um, 5 anos atrás, no treinamento de Trini.

A Guide Dog Foundation For the Blind, nome da escola, tem um campus grande. Não sei o quanto, porque nunca fizeram um tur conosco por lá. Mas possui canis, escritórios, algumas casas, onde moram alguns funcionários, e o prédio principal, onde ficamos.

No térreo, ficam os quartos individuais, cada um com seu banheiro; duas salas de estar, uma com cadeiras e outra com sofás; o refeitório, a cozinha, onde somos proibidos de entrar;  o escritório de atendimento ao consumidor, no caso, os estudantes. Ainda tem a recepção, uma sala estilo lanchonete americana, para fazermos treinamento, várias saídas, inclusive para o lugar onde os cães fazem as necessidades, e duas lavanderias com máquina de lavar e de secar roupa.

Todas as portas são sinalizadas com Braille, e não costuma ter nada no meio do caminho, a fim de que possamos andar até sem bengala pelos corredores. Mas nem tudo é perfeito. Não há nenhum tipo de sinalização nas máquinas da lavanderia. E, sempre que eu tinha que usá-las, eu tinha que pedir para quem enxerga me ajudar. Na sala tipo lanchonete, havia uma geladeira para o uso dos estudantes e um micro-ondas, que, apesar de falar os comandos ao se pressionar os botões, ninguém sabia como usá-lo para nos explicar.

No andar de baixo, ficam a sala de TV com vídeos com audio-descrição e uma sala para escovarmos os cães. Nela, tem tipo um balcão baixo para o cachorro subir e ficar em uma altura boa para escovarmos. Nesta sala também fica a bicicleta ergométrica para quem deseja fazer exercícios. Até parece que tínhamos tempo.

Nos outros andares ficam os outros escritórios, como da diretoria e de marketing. Desta vez, porém, nem cheguei perto.

Todo o prédio é climatizado, e podemos controlar individualmente a temperatura do quarto. Por isso, apesar do frio que fazia lá fora, dentro, ficávamos quentinhos. A internet sem fio não chega nem perto do sofrimento da brasileira. O sinal pegava muito bem, em qualquer lugar que eu estivesse, até a metros da escola. Com isso, eu podia me comunicar com meus amigos quando eu estava na escola, através do Whats App.

Danieli Haloten

UM SONHO REALIZADO

Finalmente, pude nadar com golfinho

Sempre fico chateada quando as pessoas me dizem que foram a Pipa (RN) ou Fernando de Noronha e viram golfinhos, porque, a menos que eu pudesse tocá-los, eu nunca poderia conhecer um, bem como os demais animais selvagens. Assim, o Discovery Cove, situado em Orlando, seria, talvez, a única chance para eu conhecer um golfinho.

O Discovery Cove é um resort que faz parte dos parques do Sea World. Sua atração principal é o nado com golfinho, um dos motivos principais que me fizeram ir a Orlando antes de ir para o treinamento com meu cão guia. Como o ingresso é caro (entre $ 290,00 e 390,00, dependendo do dia) e os guias não possuem passe para o parque, eu não tinha como levar um guia comigo. Minha amiga Priscila, contudo, conseguiu que sua amiga Fernanda, relações públicas do resort, me acompanhasse por lá. Um dia antes do meu grande dia, entretanto, Fernanda conseguira um passe para eu levar um acompanhante. O passe do Discovery também dá direito a quatorze dias nos outros parques da Sea World. Assim, Priscila encontrou uma amiga que quisesse ir ao resort de graça, em troca de ir comigo ao Sea World e Aquatica comigo no dia seguinte.

Minha guia improvisada se chama Ângela, e, sem trocadilhos, é um anjo, um amor de pessoa e estava tão entusiasmada quanto eu para passar o dia no resort.

A fim de aproveitarmos todo o dia no resort, Ângela passou umas 7:30 na casa da Priscila para me buscar. Com uma sensibilidade nata, ela ia me descrevendo os lugares por onde passávamos com o carro. Ela me informou que passamos por uma das casas de Michael Jackson, além de bonitas paisagens (ela não é guia profissional, só uma pessoa com boa vontade). 

Eu nunca havia estado em um resort. Então, estava me sentindo toda toda, além da ansiedade em conhecer um golfinho, esse animal que desperta tanto carisma. Ângela e eu chegamos e fomos recebidas, calorosamente, por Fernanda e seu assistente, ambos brasileiros. Recebemos um crachá e um mapa do local e nos dirigimos ao restaurante. 

O valor da entrada dá direito a café da manhã, almoço, bebidas, inclusive alcoólicas, e comidinhas à vontade durante todo o dia.

O café era tipicamente americano: batata, aquela salsicha americana que eu adoro, ovos, bacon, torradas francesas (parecida com rabanadas) e meu querido maple syrup; só faltou a panqueca. Havia café, sucos, leite e iogurte, além dos muffins. 

Tentei comer perto da quantidade habitual. E, apesar de ter comida à vontade espalhada pelo parque, como pretzels, cookies e salgadinhos, não aproveitei. Não era só por estar pagando que eu iria passar mal de tanto comer. Por isso, durante o dia, acabei pegando só água e um negócio, o qual não me lembro o nome, que parecia um sorvete, só que mais líquido, para beber mesmo. 

A proposta do resort é relaxar e fugir das filas. Por isso, achei que iria tirar o dia para ficar deitada numa espreguiçadeira, lendo ou ouvindo música. Que nada! Eram tantas coisas que Ângela ou eu queríamos fazer, que não paramos um minuto.

Fernanda havia reservado uma barraca perto da lagoa dos golfinhos para ficarmos. Pegamos toalhas e a roupa de neoprene e deixamos lá. Mas fomos alertados de que, para entrar nas piscinas ou no rio, teríamos que usar ou a roupa de neoprene ou um colete do mesmo material. Então, vestimos o colete, passamos o filtro solar fornecido pelo parque (que, segundo eles, não agride os animais) e fomos curtir o dia.

Fernanda sugeriu que começássemos com o viveiro de pássaros, pois, mais cedo, eles estariam com fome, e viriam perto para comer frutas que o próprio Discovery fornecia para nós os alimentar. A gente poderia ter acesso às aves por terra ou pelo rio artificial. Ângela preferiu ir pelo rio, por isso, acabamos chegando no viveiro quando seus habitantes já não estavam com tanta fome. Mesmo assim, um ou outro passarinho veio até mim para comer. E tinha uma espécie de pavão que andou atrás de mim durante um bom tempo e até me deixou tocá-lo. Já os pássaros menores se assustavam ao tentar tocá-los, pegavam sua comida e voavam.

Ave
Alimentando uma ave marrom, do tamanho de um gavião, no viveiro dos pássaros. 

O viveiro era dividido em três áreas e visitamos todas. Despendemos bastante tempo lá, porque Ângela estava maravilhada com os pássaros.

Quando vimos, já era perto do meio dia. Então, fomos à piscina onde estavam os peixes e as arraias. Os dias na Flórida estavam atipicamente frescos. E, como a água dos peixes tinha que ser temperatura ambiente – fria, pus o macacão comprido de neoprene e fiquei confortável. Eu nem estava tão interessada nessa atração. Fui mais para fazer companhia para minha nova amiga e acabei curtindo, porque as arraias chegaram bem pertinho de mim e pude tocá-las.

Arraia
Conhecendo uma das arraias, dentro da piscina dos peixes.

Nadando com golfinho

Ao sair da piscina das arraias, já era quase 13:30, horário marcado quando chegamos ao resort para eu nadar com os golfinhos. Ângela e eu nos dirigimos à lagoa. Assinei um papel que dizia que eu eximia o parque de qualquer acidente que houvesse comigo e fomos nos juntar ao grupo que interagiria com o golfinho comigo.

 

Nosso horário atrasou. Explicaram que os golfinhos só vêm interagir quando querem. Se eles estão brincando ou namorando, eles não interrompem suas atividades para brincar com os humanos.

Quando os golfinhos quiseram dar o ar de sua graça, entramos na lagoa e ficamos enfileirados um do lado do outro. Éramos instruídos a não sair do lugar. O golfinho fazia truques, os quais não vi e vinham até nós, quando eu podia tocá-los muito rapidamente.

A experiência dura meia hora, mas o nado em si não deve durar dois minutos. É muito rápido.

Nadando
Nadando com o golfinho

Tendo em vista que iríamos a um local onde não dava pé, pedi para usar colete salva vidas. Ao chegar a minha vez, o coração foi batendo mais forte. A treinadora me levou para o fundo da lagoa, e o golfinho me trouxe de volta para o raso. Fui instruída para segurar na nadadeira central e lateral do golfinho e vir flutuando com ele. Nem me lembro se tive que bater pernas. Só sei que foi uma emoção única, no entanto, com muito gostinho de quero mais. A vontade que eu tinha era de ficar agarrada no bicho. Ele tem uma textura tão gostosa, parece uma borracha. Ao me separar dele, fiquei triste e claro que eu aproveitava todos os momentos que ele chegava perto para interagir com ele. Todos se admiraram quando meu amigo nadador virou a barriga para cima, como quem quisesse receber carinho de mim. E Ângela disse que ele fez por conta própria, nenhuma treinadora o ordenou fazê-lo. Quando ele estava longe, não deixei de interagir. Fiz barulho, colocando a boca na água, e ele me imitou, como quem conversasse comigo. Para mim foi o máximo. E todos, novamente, admiraram-se, inclusive as treinadoras.

Beijo de cinema

Até que chegou o momento do beijo. A treinadora perguntou se eu queria dar um beijo no nariz do golfinho. Claro que respondi afirmativamente. Ela nos orientou a juntar as mãos, como se fôssemos segurar seu rosto, e, ao posicionar as mãos, o bichinho colocou o nariz nelas e dei o beijo nele.

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Beijo no nariz do golfinho.

O golfinho fez mais alguns truques, e o sonho havia acabado. Tive que me segurar para não chorar de tanta emoção. Eu havia, finalmente, conhecido um golfinho. E eles são realmente adoráveis como se vê nos filmes. Eu queria trazer um para casa, mas tive que me contentar com o de pelúcia.

Fernanda, que ficara d longe com o celular da Ângela, tentou tirar algumas fotos da gente. Ela também se emocionou. — Estou acostumada a ver essa interação há anos, mas nunca havia me emocionado tanto quanto com você com os golfinhos.

Já passava das 15:00, e o almoço estava se encerrando. Por isso, Fernanda foi almoçar conosco. Sob sugestão dela, pedi um sanduíche de porco, típico não sei de que lugar dos EUA. E, pela primeira vez, experimentei o vinho Chardonnai. Uma delícia!

Depois de recarregar as energias, estava quase na hora de ir embora – o resorte fecha 17:00. Ângela e eu fomos tomar um banho, com shampoo, sabonete, tudo incluso no valor do passe. Era bom receber tratamento de primeira classe. Isso é que é se hospedar num resort. Não é como quando as pessoas pegam aquelas promoções em resorts no Brasil e depois não têm nem dinheiro para comer no restaurante deles de tão caro. Já o passe do Discovery, cada dólar valeu a pena, com exceção do nado com golfinho, curtíssimo, e as fotos, que não precisavam custar tanto.

Antes de sair, fomos comprar as fotos. Uma foto custava $ 40,00; um conjunto de quatro, $ 100,00; já o quite com todas as fotos e o dvd com a gravação da interação custava quase o valor da entrada. Tudo demasiadamente super faturado. Escolhi uma única foto. Ângela e Fernanda escolheram a foto do beijo. Graças a Ângela e Fernanda, passei um dia memorável.

Ângela me levou de volta a casa de Priscila. Como Ângela morava do outro lado da cidade e ao lado dos parques aquáticos, decidimos que era mais prático se eu fosse dormir na casa dela.

No dia seguinte, o céu estava nublado e com previsão de chuva à tarde. Não estava muito quente para ir a um parque aquático.  No Sea World, fomos às atrações mais leves. Já que Ângela tinha medo de montanha-russa, acabou me desencorajando e não fui também. Além dos brinquedos, o Sea World tem flamingos e pinguins para ver.

Depois de dividir com Ângela a famosa  coxa de peru (muito grande), dirigimo-nos ao Aquatica com o ônibus que ligava os dois parques, pertos, mas não o suficiente para ir a pé. Lá, aproveitamos a piscina e os tobogãs. Não há muitas atrações. E, apesar de Ângela estar curtindo a piscina feito criança, o clima não estava ajudando, e eu estava arrepiada de frio. De repente, começou a chover e fomos embora. 

Minhas férias haviam terminado, e, no dia seguinte, eu voaria a Nova York, para o treinamento “militar” com o cão guia.

O preço do sonho

Quando estava decidindo ir ao Discovery Cover, tive uma séria discussão com minha consciência e com minha irmã, porque sou uma amante da natureza e dos animais. Como eu iria a um lugar que explora animais para entretenimento dos “humanos”? Eu, que morro de dó dos bois nos rodeios, que não deixo matar uma cobra, se não for venenosa; que peço para as moscas irem para longe, para minha mãe não as matar; que me agarro com os cachorros de rua… Que desaprovo zoológicos feitos unicamente para a diversão do homem? 

— Você vai ajudar a financiar o entretenimento animal para ver o golfinho? – indagava minha irmã.

O problema é que o fato de eu não ir ao parque e nunca poder ver um golfinho não iria terminar com a exploração desses animais. E, já que rogo que, no futuro não haja mais nenhum local que explore animais selvagens, talvez, essa fosse a única chance para eu, cega, conhecer um golfinho. Além do mais, eu precisava conferir de perto, se esses animais são bem tratados.

Os golfinhos parecem bem felizes. Tanto é que, os treinadores garantiram que eles não vêm interagir com as pessoas se não querem. O treinamento é feito somente com reforço positivo (o qual explicarei em outro post, pois é parecido com o treinamento do cão guia). E os visitantes do resort só podem usar filtro solar ofertado no local, que não é nocivo aos animais. A água onde ficam os animais marinhos tem temperatura ambiente. Quanto ao boato de que se arrancam os dentes dos golfinhos para não ferirem os humanos, Fernanda me garantiu que eles têm todos os dentes. Apesar de todo o cuidado e do tamanho dos tanques onde ficam os golfinhos, nada se compara ao tamanho do oceano.

O que não gostei foi quando descobri que os ferrões das arraias são cortados, para não nos ferir na interação. Fazer isso só para os “humanos”poderem tocar nelas? Desnecessário.

Outra coisa que não gostei foram as aves presas. O viveiro é alto e grande. Nada, todavia, compara-se a imensidão do céu.

Nos vídeos do parque, eles falam de preservação da natureza e blábláblá, mas não explicam como capturam os animais para nosso bel entretenimento.

A essas alturas, já devem estar chovendo críticas, chamando-me de hipócrita. A final, se penso tudo isso, como fui pagar para interagir com golfinho?

Confesso que tive uma crise de consciência. A vontade de ver um golfinho, porém, predominou. Minhas crenças foram vencidas pelos filmes com golfinhos amigos e toda a propaganda que se faz sobre esses mamíferos adoráveis. E sim. Acredito que eles podem sim interagir com o homem. Contudo, se fosse para eles viverem conosco, eles ficariam na beira da praia, não no fundo do mar.

Não sou hipócrita. Continuo contra a exploração de animais selvagens para nosso entretenimento. Só acho que sou contraditória. Aliás, todos nós somos. Também sou contraditória por não conseguir preparar um alimento com carne nem matar para comer e não conseguir viver sem proteína animal.

Óbvio que esse animais nunca poderão voltar para a natureza, pois estão acostumados à proteção do homem e até gostam da vida que levam. Mas se eu pudesse dar uma ordem mundial, proibiria, a partir de agora, a captura de qualquer animal selvagem para entretenimento “humano”. Aliás, é por isso que vou lutar.

 

Danieli Haloten

Museu para cego ver

Eu sempre quis conhecer o Museu de cera Madame Tussauds, mas achava que teria que ir à Inglaterra para tanto. Por isso, ao pesquisar sobre Orlando, antes de viajar, fiquei muito entusiasmada, ao saber que havia uma versão do museu na cidade. Ele fica na I-Drive 360: um complexo com lojas, restaurantes, O SeaLife Aquarium e a roda gigante Orlando Eye.

Como eu havia mencionado no post anterior, depois da Disney, fomos ao Madame Tussauds. Adoro visitar museus, principalmente de história, contudo, acabo quase sempre me frustrando por não poder tocar nas exposições. O Tussauds, entretanto, é um museu para cego ver, porque se pode tocar em tudo, sem restrições.

As personalidades são feitas de cera, em tamanho real e ficam dispostas em salas temáticas. O presidente Obama e Trump estão em uma sala onde toca uma música solene. Já os artistas como Madona e Angelina Jolie, em uma sala com fundo musical pop.

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Eu fazendo chifrinho no Trump que está em pé de terno preto, camisa branca e gravata cor cereja com as mãos na fivela do cinto.
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Eu de braço dado com Barack Obama vestindo terno preto, camisa branca e gravata cinza clara em pé de braços cruzados.
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Eu em pé ao lado da Angelina Jolie. Ela está de vestido longo verde musgo levemente cintilante. Decote em v e cabelos lisos soltos.
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Eu ao lado da Madona em pé imitando-a. Ela está com os braços cruzados erguidos e de roupa social risca de giz, camisa branca, calça, gravata e luvas longas pretas por cima da camisa.

Para compor o clima, os bonecos de cera fazem pose em cenários próprios, a exemplo de Oprah Winfrey, com um banquinho para seu convidado; e Aldrey Hepburn, tomando chá, elegantemente,  em uma mesa.

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Eu sendo entrevistada por Oprah, a qual veste um vestido pink de mangas longas e sapatos de salto pep tue prata.
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Eu sentada ao lado de Aldrey que está elegantemente sentada tomando chá trajando um vestido preto de alcinhas, luvas pretas longas acima dos cotovelos e colar de pérolas.

Adivinha quem encontrei no museu? Neymar!…

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Eu em pé ao lado de Neymar comemorando um gol com o uniforme da seleção brasileira.

De cera, representando o Brasil. Mas fiquei chateada por não ter encontrado uma de minhas celebridades favoritas: Marilyn Monroe, não estava exposta por estar em reparo.

Apesar de ter sido muito legal saber como eram muitas personalidades famosas, o ponto alto do museu foi fazer minha mão de cera. A recordação perfeita do passeio. Sem falar no processo interessante de se fazer algo em cera.

Primeiro, minha mão foi colocada em uma água com gelo por trinta segundos, que foram suficientes  para sentir minha pele queimar. Depois, minha mão foi mergulhada numa cera líquida e bem quente. Na hora de a funcionária do museu retirar o excesso da cera e finalizar minha luva de cera, no entanto, o processo dera errado, e teríamos que fazer o procedimento todo de novo. Aiaiai! Minha pele é muito sensível e tive um nano segundo de arrependimento. Sorte que na segunda vez, deu certo e saí do museu com minha mão de cera rosa, a cor que escolhi para ser pintada. Pena que minha guia se esquecera de tirar uma foto do processo.

O molde de cera custa quinze dólares. O que não gostei foi que eles não têm uma caixa para colocar o souvenir. Só o enrolam em um papel de ceda e colocam em uma sacola e ainda avisam que quebra fácil. Sabendo que muitos turistas visitam o local, deveriam preparar um recipiente adequado para transportar uma lembrança tão emblemática do local. Como eu iria carregar minha frágil mão para Nova York e depois para o brasil?

Além da mão de cera, o Madame Tussauds tem sua loja de lembrancinhas. Minha guia,  mostrou-me somente um trofeu em miniatura do Oscar, o qual comprei. Finalmente, ganhei o Oscar!

O Madame Tussauds de Orlando não é muito grande, a ponto de eu ficar frustrada ao saber que havia terminado. Dá para fazer o passeio, tranquilamente, em duas horas.

Propaganda melhor que o produto

Quando eu pesquisava sobre a I-Drive 360 na internet, os comentários diziam que na visita ao local não poderia faltar o Shake Shack: o melhor hambúrguer dos Estados Unidos. Por isso,   fui com muita expectativa provar. Pedi um sanduíche de hambúrguer com cogumelo. Olha, o molho até que estava bom, mas garanto que no bairro onde moro tem hambúrguer muito melhor. Minha guia, que era carioca, também havia dito que nunca comera hambúrguer melhor do que no Shake Shack. Cheguei à conclusão de que brasileiro, quando vai para fora, esquece o que é bom.

Minha guia disse que eu não pedira o hambúrguer certo, que eu deveria ter experimentado o sanduíche tradicional. Mas o hambúrguer era o mesmo do tradicional e não tinha gosto de nada, como todo o hambúrguer americano. Agora, a batata frita do Shake Shack é muito saborosa, parece que tem um tempero diferente. É bem feitinha. 

Depois de saciar a gula e a curiosidade, eu havia me programado para conhecer a maior roda gigante da cidade: a Orlando Eye. Como a guia estava preocupada com o horário, mesmo sabendo que tínhamos folga para completar as doze horas contratadas, acabei desistindo de ir. No aquário, eu não iria mesmo, por se tratar de um passeio visual. Então, demos o dia por encerrado.

Danieli Haloten